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Rafael Guedes, jornalista e aspirante a outras maldades.
November 4, 2009
“Já cantei muito, agora não canto mais...”

Cartum do Ubiratan.

Eu abro mão de comprar essa briga entre carimbó tradicional e carimbó moderno. Os argumentos são demasiados chatos e apaixonados, sem discernir muito bem como e por quê cada vertente seguiu seu rumo. E não me solidarizo com Verequete porque tenha estado pobre frente ao sucesso de Pinduca ou de qualquer outro artista paraense, mas sim porque sua pobreza esteve escancarada durante tanto tempo sem que um número significante de pessoas com acesso aos mecanismos necessários tenha refletido em termos culturais mais amplos e claros, que dizem respeito a mercado cultural, políticas públicas e oportunidade.

Conheci Verequete em 20 de julho de 2006, em busca do paradeiro de alguém que parecia ter sido engolido pelo esquecimento, para uma matéria de jornal. Sem marcar entrevista, encontrei-o em um quarto abafado e sem ventilador, no calor da baixada de Belém. Não era exatamente o quarto de um verdadeiro rei - como muitos gostam enfaticamente de chamá-lo, em contraposição a Pinduca - ou de um mestre do produto mais tradicional da música paraense.

Verequete falava com dificuldade. Não se lembrava da data de seu aniversário, 26 de agosto, nem da maior parte das letras de suas músicas. A bem da verdade havia um projeto para confecção de um box com CD, songbook com partituras de suas músicas e DVD, com grana da Vale do Rio Doce. E eu, que paguei de fã, bati foto e escrevi com afinco, nem sei como ficou isso.

Verequete viveu alguns dias de solidariedade e também oportunismo - ainda que útil. Uma rede de farmácias se prontificou, no dia seguinte à publicação da reportagem, a doar mensalmente R$ 1.000 em medicamentos até o resto de sua vida. Não é pouca coisa. E a primeira parcela da pensão a Verequete, prevista em projeto de lei que já havia sido aprovado cinco meses antes na Assembléia Legislativa do Estado, fora anunciada para o final já daquele mês.

A primeira parte da matéria é a que segue abaixo. A segunda falava do projeto de resgate do trabalho de Verequete. Seria legal saber da mulher dele se as coisas aconteceram mesmo como prometidas. Ao fim e ao cabo não adianta chorar a dor de Verequete só agora. O Mestre já agonizava há muito tempo.

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No meio do Jurunas, entre ruas de terra e canais abarrotados de lixo, há um Kikito. Ele divide espaço com troféus de festivais de carimbó na única cômoda do quarto abafado, sem ventilador e sem o glamour que o prêmio do Festival de Cinema de Gramado carrega. Seu dono é Augusto Gomes Rodrigues, que aos 89 anos se recupera de uma cirurgia para colocação de um marca-passo, realizada em junho.

Vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) em 2001 que lhe roubou os movimentos e a visão do lado direito do corpo, Augusto passa o dia entre o banho de sol na cadeira de rodas e a cama, instalada em um quarto improvisado na cozinha da casa. E, do repertório que o tornou uma lenda do carimbó, lembra-se de apenas duas canções, uma delas premiada em Gramado. Mais visitado pela imprensa que pelos amigos e incapacitado de compor. Este é Mestre Verequete.

“Não estou feliz porque não tenho…”, e Verequete esfrega polegar e indicador, num gesto universal sobre o dinheiro. “Não ganhei dinheiro nenhum nessa vida.” Seu orçamento se restringe ao salário mínimo que recebe do INSS e que é administrado pela esposa, Cenira da Silva, 50 anos, que parou de trabalhar para cuidar do marido. É ela quem dá banho e remédios e responde a algumas perguntas de que a memória de Verequete já não dá mais conta.

Ele também está inscrito na lista de beneficiados com cestas básicas da igreja Santa Terezinha. Aprovada por unanimidade na Assembléia Legislativa do Estado em fevereiro deste ano e publicada no Diário Oficial do dia 12 de junho, a lei que estabelece a concessão de uma pensão de R$ 900 ao músico só vai entrar para valer no final de julho. “Vou ter que ir ao banco no final do mês para saber se vou começar a receber”, diz Cenira. Apesar disso, o Estado garante que seu nome já consta da folha de pagamento dos servidores inativos e atribui o atraso ao não recebimento da documentação completa.

O dinheiro vai trazer algum alívio, principalmente para a compra de medicamentos para pressão alta e para amenizar os efeitos de um derrame e um enfisema pulmonar. Quando não consegue os remédios na Casa do Idoso, da Prefeitura de Belém, Cenira tira do próprio bolso. “Isso tudo daria para mais de trezentos reais por mês”, espanta-se. Com a pensão, ela também pretende reformar o piso do segundo andar da casa, de madeira apodrecida, onde a filha de Verequete vive com o marido e uma criança.

Quer também ventilador e algum conforto para o quarto improvisado. São planos que Cenira tinha quando, equivocadamente, o ex-prefeito Edmilson Rodrigues decidiu agraciar o músico com um cargo de DAS, irregular, conforme explica a atual Coordenadoria de Comunicação Social da Prefeitura. A sucessão de equívocos veio com a revogação do auxílio de R$ 600 pelo prefeito Duciomar Costa sem que se pensasse em outra solução. E de símbolo da cultura popular paraense, Verequete se tornou um cidadão qualquer num dos mais miseráveis bairros de Belém.

Mas ainda que lhe doa a pobreza, é da solidão que ele mais reclama. “Eu estou esquecido, mesmo. Os amigos demoram cinco, seis meses pra vir. Aqui não tem uma pessoa que diga ‘Verequete é querido, Verequete é procurado’. Mas quando eu canto uma música no interior, o pessoal só falta ficar doido. E todo mundo grita: ‘Lá vem o Verequete!’.”

Sem poder se aproximar de equipamentos eletrônicos em virtude do marca-passo, Verequete sente falta dos ensaios com o grupo Uirapuru, que fundou em Icoaraci em outubro de 1970. “Já cantei muito, agora não canto mais…”, diz, com certa modéstia. “Mas se quiser me chamar, eu tô aí.” E sorri, com saudade dos amigos e da roda de carimbó que ele ajudou a inventar.

Publicada no caderno Magazine de O Liberal
21 de julho de 2006





October 26, 2009
thedailywhat:

[thanks chris!]
Earlier: TDW reviews Paranormal Activity.

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October 12, 2009
Adquirido em um mercado indiano. Paulo e Gustavo me recebem.

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September 26, 2009
Dança contemporânea


Alguém falou em limite?

September 10, 2009
Meteorologia


Só lá no Placa.

September 5, 2009
[Flash 9 is required to listen to audio.]  

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but let’s not talk of love or chains and things we can’t untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that’s no way to say goodbye.

Evan Dando e Liv Tyler cantam “Hey, That’s No Way To Say Goodbye”, de Leonard Cohen.

Paulo, meu irmão mais velho, foi o responsável por me apresentar “It’s A Shame About Ray”, quinto álbum do Lemonheads. Lembro da gente dividindo um cobertor mulambento nas tardes de MTV num rincão do Mato Grosso do Sul e gravando pelo videocassete a versão deles para “Mrs Robinson”, de Simon & Garfunkel.

Era o nosso contato mais próximo com nosso curto passado roqueiro urbano. Paulistanos desgarrados, boçais vítimas de bullying pesado por conta do sotaque e cuja vida no Centro-Oeste se resumia a índios suicidas mendigando pão velho nos portões, campinhos de futebol onde o pau comia solto, mobiletes, talentos sertanejos, um certo grau de pistolagem e um isolamento estarrecedor. A gente não sabia bem onde estava até o Paulo chegar em casa com vergonha dos hematomas porque lhe roubaram a bicicleta - bicicleta minha, que ele pegou sem pedir. É assim que se aprende.

Foi em meio a essa vivência suburbana estranha e feliz, batendo e apanhando na rua, que eu entrei nos anos 90. E com “Confetti” aprendi a respeitar Evan Dando e elegi uma das minhas bandas preferidas dos 90’s, trilha sonora do meu faroeste particular. Ontem, talvez a véspera de feriado mais quente de Belém, o Damaso tuitou sobre o “Varshons”, coletânea de covers do Lemonheads que inclui a versão para a canção de Cohen. E me trouxe de volta o cheiro de mato, a molecada pulando o muro pra roubar cana-de-açúcar, o tabaco impregnado no abraço do meu pai e todas essas coisas que não voltam mais.